DEPRESSÃO: O MAL INVISIVEL

October 30, 2014

Ignorada por médicos e pacientes, a depressão já atinge uma a cada dez pessoas no mundo

 

   Imagine uma doença tão disseminada que afeta 340 milhões de pessoas em todo o mundo. Imagine que o distúrbio é tão desabilitante que reduz a produtividade profissional dos pacientes em 10% ao longo da vida (só nos Estados Unidos, estima-se que seus custos sociais estejam próximos de US$ 85 bilhões ao ano).

 

   Imagine que esse problema traz graus tão perturbadores de autodepreciação, apatia, isolamento social, distúrbios de sono e sentimentos de culpa que leva anualmente a 800 mil casos de suicídio. Agora imagine que, para a maioria dos portadores dessa patologia, o sofrimento não sai dessa esfera - a imaginação. Ninguém vê. Nem mesmo os médicos.

 

   Apesar disso, o número de pessoas sofrendo de depressão dobrou nos últimos 50 anos, deixando cientistas preocupados e se perguntando por quê. O curioso é que nossas vidas, nesse período, melhoraram drasticamente. Hoje, comemos melhor, trabalhamos menos horas diárias, gozamos de mais saúde, tiramos férias mais longas e temos um poder de compra incomparavelmente maior. Ainda assim, a previsão é de que, em algum momento, um a cada cinco de nós venha a ter depressão.

 

   Com tantos avanços, como se explica o aumento? Um dos palpites é que essas melhorias acabaram por afetar drasticamente o nosso modo de vida. A existência de facilidades que satisfazem todas as nossas necessidades, por exemplo, nos afastou do sol. A luz solar, sabe-se, estimula a produção de serotonina, o combustível do prazer no corpo humano. Jovens e idosos, nos pólos ou nos trópicos, tornaram-se sedentários, passando a ficar a maior parte do tempo em locais fechados. Outra explicação é a ausência de tratamento adequado. Com a expectativa de vida cada vez maior, pacientes de depressão estão também sujeitos a um maior número de recidivas. A falta de atenção só deixa o fantasma do problema cada vez maior.

 

   A depressão é um quadro clínico que passa batido pela maioria dos médicos. Muitas doenças podem simplesmente ser reflexos da depressão, que costuma ser reduzida a "tristeza". Mas esse transtorno do humor apresenta tanto sintomas emocionais como físicos e é preciso conhecer melhor o problema para evitar a epidemia que já se desenha - hoje, 10% da população mundial sofre do mal. Em dez anos, acredita-se que esse número será de 20%.

 

   Recentemente, a Organização Mundial da Saúde classificou a depressão como uma das doenças que mais causam incapacidade. É a quarta, em uma lista de cinco. Até 2020 terá ocupado um pouco honroso segundo posto (veja quadro ao lado). No Brasil, hoje, 15,6% da população já é afetada pelo problema. E, ao contrário do que muita gente acredita, o transtorno não é privilégio de quem vive no ritmo intenso das grandes cidades. Estudos realizados na zona urbana de São Paulo e na pequena comunidade de Bambuí (MG) mostraram a mesma prevalência de depressão, com os mesmíssimos sintomas.

 

   A ciência explica a doença como resultado de um desequilíbrio bioquímico no cérebro. Os neurônios, para se comunicar, usam substâncias conhecidas como neurotransmissores. Em pacientes deprimidos, essas substâncias não circulam como deveriam. Algumas áreas do cérebro chegam até a reduzir-se em pacientes deprimidos. (Depois de um ano de tratamento, porém, vê-se a área voltar a crescer.) "O 'elo perdido' são a serotonina e a noradrenalina", diz Delgado. "Em níveis inadequados, elas não apenas aumentam o risco de depressão como reduzem o limiar de dor." O efeito, conseqüentemente, são os sintomas físicos.

 

   O surgimento de problemas corporais sem explicação, ou que não desaparecem quando tratados, deve ser sinal de alerta. "A tristeza é apenas um dos sintomas da depressão", diz Helena Maria Calil, professora de psicofarmacologia e diretora do departamento de psicobiologia da Unifesp. "E, às vezes, pode nem estar presente."

 

   As causas da doença são variadas. A vivência de situações desgastantes ou traumáticas (como a perda de um familiar), abuso de drogas ou álcool e personalidade melancólica podem levar a um quadro depressivo, mas entre 30% e 40% das raízes são genéticas.

 

   Um estudo realizado no centro médico da Universidade Columbia, nos EUA, revelou que a depressão se intensifica de uma geração para a outra. De acordo com a equipe, cerca de 60% das crianças cujos pais e avós sofreram de depressão têm transtorno psiquiátrico antes da adolescência. O número é mais do que o dobro de casos (28%) observados em famílias sem histórico. Felizmente, como explica Helena Calil, a genética é predispositiva, não decisiva.

 

Interação diversificada


   Uma das causas mais importantes, afirma Pedro Delgado, é o estresse do organismo. "É como uma pessoa com veias entupidas que vá correr e sofra um enfarte. Correr é o estresse que leva ao problema", diz. Por isso, a saúde geral do paciente também influi. "Quando o corpo está debilitado, por qualquer motivo, fica mais vulnerável", diz o psiquiatra. "A depressão pode ser resultado da interação entre várias vulnerabilidades." Além disso, se o paciente tiver qualquer outra doença, a situação piora se ele estiver deprimido. Pessoas nessas condições apresentam um maior risco de mortalidade por outras causas do que a população saudável.

 

   Fica claro, com isso, que não adianta mergulhar no problema. Não é uma questão de evitar a tristeza a todo o custo - até porque a depressão é muito mais intensa e abrangente que o estado emocional -, mas de reequilibrar uma desordem química que tende a ter efeitos perigosos. Na maior parte dos casos, medicamentos são imprescindíveis. "Antidepressivos são como fertilizantes", compara Delgado, "que ajudam a crescer os neurotransmissores. O remédio dá aos neurônios capacidade de ficarem mais resistentes, imunes ao estresse."

 

   Uma das maiores preocupações de pacientes que precisam submeter-se à terapia farmacológica é a possibilidade de desenvolver dependência, mas os médicos alertam que não há o que temer: a falta de uso pode provocar sintomas físicos, como enjôos, mas não crise de abstinência. O risco maior de quem começa o tratamento é interrompê-lo.

 

Os efeitos no organismo

 

   Desencadeada por um desequilíbrio na atividade química do cérebro, a depressão pode afetar todo o organismo. Muitas vezes, queixas que parecem distantes, como dores de estômago, podem ser manifestações físicas do problema.

 

1. Quando o cérebro detecta uma situação estressante ou angustiante, estruturas como o hipotálamo, a amídala e a glândula pituitária ficam em alerta. Elas trocam informações entre si e enviam sinalizadores químicos e impulsos nervosos que preparam o corpo para os momentos difíceis

2. As glândulas supra-renais reagem ao alerta liberando adrenalina, o que faz o coração bater mais rápido e os pulmões trabalharem mais para oxigenar o corpo. As células nervosas liberam noradrenalina, que tensiona os músculos e aguça os sentidos. A digestão fica prejudicada, o que pode provocar enjôos

3. Depois que a influência externa passa, os níveis hormonais caem, mas se as crises forem muito freqüentes, tais substâncias podem danificar as artérias. Casos crônicos levam a um sistema imunológico enfraquecido, perda de massa óssea, supressão da capacidade reprodutiva e problemas de memória.

 

O exercito quimico

 

  Antidepressivos são drogas que aumentam o tônus psíquico, melhorando o humor e a psicomotricidade de maneira global. Todos regulam a secreção e a captação de neurotransmissores, mas são classificados de acordo com a ação que desempenham.


Antidepressivos tricíclicos (ADT)
   Os ADTs agem no sistema límbico, que é a área do cérebro que cuida das emoções. Ele aumenta a quantidade de serotonina e de noradrenalina na fenda sináptica (região entre os neurônios, onde ocorrem os impulsos elétricos). O efeito é conseguido de duas maneiras: ao mesmo tempo que o medicamento impede a recaptação das substâncias, ele diminui a quantidade de receptores. Assim, a concentração dos neurotransmissores aumenta. São indicados para tratamento diversos: depressão associada com esquizofrenia e distúrbios de personalidade; distimia (mau humor crônico); depressão pós-traumática ou psicopática; síndromes obsessivo-compulsivas; fobias e ataques de pânico.


Inibidores da mono-aminaoxidase (IMAO)
   Os antidepressivos do tipo IMAO aumentam a disponibilidade da serotonina no cérebro. Essa classe de medicamentos inibe a ação da monoaminaoxidase, enzima responsável pelo metabolismo desse neurotransmissor. O bem-estar é efeito do aumento da concentração de serotonina nos locais de armazenamento, em todo o sistema nervoso central ou no sistema nervoso simpático. Acredita-se que a ação antidepressiva dos IMAOs se relacione também com alterações nos receptores (em número e sensibilidade), mais até do que com o bloqueio da recaptação dos neurotransmissores. Isso explicaria o atraso de duas a quatro semanas na resposta terapêutica.


Inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS)
   O efeito antidepressivo dos ISRS é conseqüência do bloqueio da recaptação da serotonina. O aparecimento de efeitos colaterais, assim como o risco de superdosagem, é menor do que nos ADT. Mesmo assim, alguns desses remédios têm ação anorexígena, levando à redução do peso corporal. São indicados para o tratamento dos transtornos depressivos, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno do pânico, transtornos fóbico-ansiosos, dor de cabeça crônica e transtornos alimentares. Alguns médicos recomendam a substância também para o tratamento do abuso do álcool.


Antidepressivos atípicos
   São os antidepressivos que não se caracterizam nem como tricíclicos nem como ISRS nem como IMAOs. Alguns deles aumentam a transmissão de noradrenalina no sistema nervoso central, ao mesmo tempo que regulam a interação da serotonina com seus receptores. Outros são inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina. Algumas dessas drogas também costumam reduzir a sensibilidade dos receptores da noradrenalina, levando a um início de efeito mais rápido. Certos atípicos não inibem a recaptação da serotonina no neurônio pré-sináptico, mas induzem sua recaptação pelos neurônios do córtex, do hipocampo e do sistema límbico. As melhoras sintomáticas já podem ser observadas entre o 3º e o 5º dias.


Fertilizantes

   Ao impedirem a recaptação da serotonina ou da noradrenalina, os medicamentos aumentam a disponibilidade desses neurotransmissores na fenda sináptica.

 

 

 

 

 

 

 

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